A Utopia Da Página Digital
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— 01 Página

A internet foi disponibilizada mundialmente no Verão de 1991[1]. Desde a sua introdução pública, através da World Wide Web[2], que a forma como vivemos em sociedade, a nossa economia, os serviços de saúde, os meios de comunicação, entre muitos outros, têm sido moldados por este avanço tecnológico. Estamos ainda a vivênciar uma fase de mutação no que ao entendimento sobre este novo meio diz respeito, faltando-nos por isso algum distanciamento temporal para perceber toda a sua abrangência, impacto, benefícios e malefícios.

Afinal o que é a internet?[3][4] Sabemos que, actualmente, a internet possibilita-nos comunicar num sistema de redes[5] e que chega até nós, o utilizador, na forma de dados (ou a tradução desses dados, informação) apresentados nos écrans dos nossos dispositivos de processamento de dados (computadores, telemóveis, tablets, e-readers, etc). Desta forma, perante o cibernauta, o meio de aceder a internet, a janela para a navegação nestas redes, é de facto uma página. Apesar de toda a inovação que a internet nos trouxe, a página não é um elemento novo para o utilizador. O Homem tem manuseado páginas desde a invenção da escrita, tendo vindo a aperfeiçoar essa relação ao longo dos anos, primeiro com os manuscritos, posteriormente com a criação da imprensa e com a sua consequente evolução para a contemporaneidade.

Internet e imprensa não se interceptam apenas cronologicamente, nem uma existe em substituição da outra, ambas existem complementarmente, onde a página é o elemento básico dessa ligação. A criação da página digital e os sistemas mais complexos formados a partir desta, são por isso fruto de uma apropriação dos elementos presentes na página impressa: suporte e dimensionalidade (papel/píxel); escrita tipográfica (fontes chumbo/fontes vectoriais); escrita com imagem (tinta/luz).

Outro dos elementos principais dessa partilha, está relacionado com a interactividade existente entre o utilizador (leitor ou cibernauta) e a página (impressa ou digital). No entanto, pode-se dizer que a interactividade criada pela página digital, confronta o utilizador com uma "folha em branco" no que diz respeito a aspectos de navegação (ex. scroll), usabilidade (ex. interface) e escrita (ex. hypermedia). Por estes serem alguns dos componentes de uma relação que não existia nos livros, a compreensão das funcionalidades que a página digital obriga, serão fruto da experiencia do indivíduo neste novo formato.

Palavras-chave: Origem. Internet. Imprensa. Interactividade.

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— 02 Dimensão

A página e os elementos que a configuram, não se ficam apenas pela materialidade tecnológica, nem pelos meios comunicacionais, passam também pela criação de uma outra realidade, exterior aos dispositivos de processamento de dados. Processo semelhante é descrito na escrita e na imprensa como a configuração de uma lineariedade.

"O processo de alinhar pictogramas começou quando a confiança nas imagens, enquanto guias de orientação no Mundo, começaram a diminuir. (...) É imperativo esboçar brevemente a revolução mental que procedeu o alfabeto. O mundo material não é mais percebido como uma circunstância mas como um conjunto de processos lineares."[1] Vilém Flusser

A variedade de informação que a página digital permite armazenar, configura uma multiplicidade de leituras, uma não-lineariedade. Como Marshall McLuhan diz, a "comunicação electrónica é uma extensão do nosso sistema nervoso central"[2][3] , conectando e facilitando o funcionamento de uma série de outros meios. Logo, o ambiente que esta caracteriza, pressupõe um estado mental diferente do linear, um estado predisposto a obter várias leituras ao mesmo tempo, provenientes de plataformas e meios distintos. Esta abordagem reflecte-se primordialmente na postura e participação que o Homem terá sobre os mais variados assuntos.

"(...) não se pode ter um ponto de vista estático na era da electricidade. É impossível ter um ponto de vista na era da electricidade e ter de todo qualquer sentido. Tem que se estar em todos os lugares ao mesmo tempo, quer se goste ou não. Tem que se participar em tudo o que está a acontecer ao mesmo tempo e isso não é um ponto de vista."[4] Marshall McLuhan

"Não há um ponto de vista certo. Estás sempre correcto. Estás sempre errado. Depende apenas da posição de que estás a ser observado."[5] Paul Arden

Palavras-chave: Não Linearidade. Realidade. Pontos de Vista.

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— 03 Paradigma

"Não interessa muito o que dizes ao telefone. O telefone enquanto serviço tem um impacto enorme no ambiente à nossa volta e esso é o meio. E o ambiente afecta toda a gente, o que dizes ao telefone afecta muito poucos. (...) O que se imprime não é nada comparado ao efeito da palavra impressa. A palavra impressa configura um paradigma, uma estrutura de consciência que afeta toda a gente, de forma muito, muito drástica e não importa muito o que se imprime desde que se continue com esse tipo de actividade."[1] Marshall McLuhan

Tal como aconteceu com a introdução do telefone, da rádio e da televisão, também a época em que vivemos está a assitir a uma alteração paradigmatica, motivada pelo uso do computador pessoal e da internet. Partindo dos princípios defendidos por Marshall McLuhan no que toca às criações/alterações sócio-comunicacionais pelo uso da electricidade ou dos "meios eléctricos", podemos concluir que os mais recentes avanços tecnológicos, por si só têm um enorme impacto na sociedade, sendo mais importante do que a utilização da mesma. Todas as acções quotidianas, corriqueiras, que envolvam a internet, afectam apenas os seus intervenientes, enquanto o meio de comunicação estabelecido pela Internet, afecta todo o ambiente em que vivemos, mesmo as pessoas que não fazem uso da Internet. Por exemplo, o facto da imprensa jornalística abandonar as versões impressas das suas publicações, passando esta a existir apenas no mundo digital, medida influenciada pela proliferação da internet, afecta toda a gente, mesmo aqueles que nunca utilizaram a Internet.

Actualmente sabemos que a Imprensa não existe sem o meio[2] que ajudou a estabelecer o seu paradigma, a Escrita. O paradigma da página digital estará sempre relacionado, por herança, com o paradigma da página impressa. A forma como acedemos à informação no computador, partiu duma primeira configuração de pensamento, a dos livros, das revistas e dos jornais. Estas estruturas de pensamento coexistem, alimentam e transmformam em simultâneo as suas configurações paradigmáticas. O pensamento evolve, não se aliena. Assim sendo, será a página digital capaz de extinguir a Imprensa, o meio que ajudou a definir o seu paradigma? Apesar da forte herança que a imprensa tem deixado na página digital, ambos os meios distribuem mensagens muito distintas, um baseado na tecnologia mecânica, perene, relativamente lenta mas durável enquanto a internet, baseada na electricidade, pressupõe uma maior velocidade e quantidade de informação num formato mais volátil.

Palavras-chave: Meio. Pensamento. Marshall McLuhan.

— 04 Linguagem

Os meios de informação digitais têm incentivado grandes transformações na forma como comunicamos. A partir do momento em que os cibernautas têm acesso às ferramentas da página digital, grandes transformações ocorrem na forma como interagimos com o texto, as imagens e os sons.

"Com a revolução industrial da imprensa, os papéis do autor, editor, tipógrafo, distribuidor, livreiro, estavam separados. Com as redes eletrónicas, essas operações podem ser acumuladas."[1] Roger Chartier

A forma como estruturamos mentalmente os nossos processos de comunicação também se têm vindo a alterar. A imprensa veio fragmentar a visão do utilizador sobre os assuntos, algo que foi assimilado pela página digital, acrescendo uma multiplicidade de leituras dos seus meios.

"A Linguagem não é mais vista como periférica para a nossa compreensão do mundo em que vivemos mas central para ele. As palavras não são meras etiquetas vocais ou auxiliares comunicacionais sobrepostos numa ordem de coisas pré-estabelecidas. São productos colectivos de interacção social, instrumentos essenciais através dos quais os seres humanos constituem e articulam o seu mundo. Essa visão da língua tipicamente do século XX, influenciou profundamente desenvolvimentos ao longo de toda a extensão das ciências humanas. Isso é particularmente marcante na linguística, filosofia, psicologia, sociologia e antropologia".[2] Michel Foucault

"Saussure fez uma famosa distinção entre langue (língua) e parole (discurso). Langue refere-se ao sistema de regras e convenções que é independente, pré-existente e parole refere-se à sua utilização em casos particulares. Na semiótica, este princípio poderia ser aplicado a compreender a distinção entre o código e a mensagem. De acordo com a distinção saussuriana, em um sistema semiótico, como o cinema, 'qualquer filme específico é o discurso do sistema subjacente da linguagem cinematográfica'."[3] Langholz Leymore

Palavras-chave: Semiótica. Chartier. Foucault. Saussure.

— 05 Sensoralidade

O fenómeno "page not found", traz o cibernauta à realidade de que a qualquer momento, a ligação que procura pode deixar de existir. A página digital, o veículo dessa informação, passa de elo conector a ligação partida, despertando no utilizador um sentimento de perda.

Se a página digital tem vindo a ser frequentemente comparada à da imprensa, encontramos na fisicalidade da primeira uma diferente materialidade. Na página digital, os sentidos estão limitados, a visão é fundamental, tendo também a audição um importante papel a desempenhar. No entanto, aquilo que visualizamos na página digital está quase sempre num plano estático (o ecran) e bi-dimensional. Os objectos formam-se dentro da página enquanto na imprensa, todos os sentidos do leitor formam a composição perceptual da obra a que estão entregues.

Pode-se perder o que nunca se teve? Além dos registos tecnológicos disponibilizados pelo computador ou pela internet, não existem outras formas de arquivo. No caso desses meios negligenciarem o arquivamento de determinada página, essa deixará de existir, tornando a página digital uma ferramenta de arquivo extramente volátil e de pertença quase nula. Na página digital apenas podemos deixar as marcas que a interactividade nos permite, não podendo riscar aleatoriamente. Pela página digital o tempo não passa, nem os insectos a corroem.

À página digital cabe a liberdade de não-existir.

Palavras-chave: Page Not Found. Pertença. Fisicalidade.

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— 06 Memória

O que acontece aos milhões de terabites de informação que circulam todos os dias na internet? Para onde vão as páginas que transportam essa informação? Existe uma plataforma liderada por um grupo não governamentel, de seu nome "Web Archive"[1] ou "Wayback Machine", cuja função é a de armazenar algum do conteúdo disponível online. Neste site é possível aceder a informação que outrora esteve online, no entanto, diversas limitações existem nesta plataforma. Entre essas limitações está o facto de apenas algumas "imagens" dessas páginas serem armazenadas, o que para um primeiro arquivo poderá ser bom, reflecte uma registo muito afastado da realidade.

Contudo, a partir do funcionamento desta plataforma — a melhor da actualidade para o arquivamento de informação online —, podemos perceber que a longo prazo, grande parte dos conteúdos que estão e estiveram depositados nas páginas digitais, irão invariavelmente desaparecer como se pelo buraco de memória passassem.[2]

Se por um lado, é perigoso para os utilizadores da internet que os seus dados, estejam a ser armazenados sem controlo por uma única entidade, por outro, o facto de não existir registo do que passa por este meio poderá também significar um problema social, no que à memória colectiva diz respeito.

Os registos, em particular aqueles que asseguram que uma história (ou a nossa História), aconteceram de determinada maneira, são importantes para garantir aos cidadãos que existe sempre a hipótese, se necessário, de verificar a veracidade dos factos. Caso isto não aconteça, as verdades podem ser rescritas, o que sugere uma facilidade na criação de autocracias. A página digital, pela sua facilidade de manuseamento e acesso, veio facilitar a rescrição desses factos. De que forma podemos continuar a usar os meios digitais e garantir a veracidade dos factos?

Palavras-chave: Arquivo. Buraco da Memória. Verdade.

— 07 Utopia

Ao longo da história, foram várias as formas que o Homem teve para criticar a forma evolutiva da sociedade. Desde a literatura ao cinema, passando pela pintura, à escultura, a criação de narrativas utópica/distópicas serviu de base para uma chamada de atenção irónica sobre um um futuro indesejável ou para propôr uma reflexão sobre a própria condição humana.

Em 1944, George Orwell escrevia o livro 1984[1], uma visão distópica de uma sociedade ditatorial onde a televisão e os meios de comunicação representavam um papel fulcral no controlo dos cidadãos. Em 1992, Francis Fukuyama escrevia "O Fim da História e o Último Homem"[2], uma ode ao liberalismo económico que via na queda do muro de Berlim o fim do socialismo, o fim da utopia. Poderá estar na página digital a nova utopia de construção social?

"The Ministry of Truth is involved with news media, entertainment, the fine arts and educational books. Its purpose is to rewrite history and change the facts to fit Party doctrine for propaganda effect. For example, if Big Brother makes a prediction that turns out to be wrong, the employees of the Ministry of Truth go back and rewrite the prediction so that any prediction Big Brother previously made is accurate. This is the "how" of the Ministry of Truth's existence. Within the novel Orwell elaborates that the deeper reason for its existence is to maintain the illusion that the Party is absolute. It cannot ever seem to change its mind (if, for instance, they perform one of their constant changes regarding enemies during war) or make a mistake (firing an official or making a grossly misjudged supply prediction), for that would imply weakness and to maintain power the Party must seem eternally right and strong." a partir de Wikipedia.

Palavras-chave: Futuro. 1984. Ministério da Verdade.

— 08 Dispositivo

"(...) Personalized Pages: As computational resources increase in power and decrease in cost, we hear more and more about the so-called "personal computer." This is an unfortunate name, given the true thrust of the movement at this time. The computers about which people are talking are not really personal and in no sense personalized (3). Instead, they are available at sufficiently low cost so as not to have to share them. Personalization comes in two flavors. The easiest form of personalizatlon to achieve is that of variety. If the choices are large enough, individual selection can be seen as a mild form of personalization: print in preferred type fonts, right handed versus left handed, and the like. At the other extreme, the most difficult to achieve, is personalization that comes from knowing. Human-to-human discourse enjoys a wide range of abbreviations and subtleties gained through familiarity, shared metaphors, and the complicated mechanisms of inference making. There are some middle-ground examples that begin to illustrate a kind of Z-axis for books without pages. Early implementations of our Spatial Data Management System (SDMS) (4,5) were a laminar of "pages." More information or elaborations were gained by literally flying through words or pictures. Their expansions can be made very personal and invoked implicitly. A simple example in a text processing application is the automatic expansion of acronyms that one does not know or has forgotten since last reading. A slightly more ambitious example of a personalized page can be derived from work currently being done on "personalized movies." These are movies whose apparent content, form and medium is the intersection of a set of resources and a model of the user contained in a computerized playback system.

(...) Books In Which We Might Live: SDMS has the added theme of the human interface. The terminal is itself a room, currently equipped with floor to ceiling display (twice as large as the one illustrated), octaphonic sound, position sensing devices for body and arm movements, and soon to get a formidable eye tracking system and continuous speech recognizer. This gaggle of equipment is assembled with the idea of going to the fullest extreme of human interfacing, leaving no channel untapped and no mode or medium of presentation unused. We propose that later one can retrench from such hyperbole, evaluating the effectiveness of one method or another, but that the human interface can no longer be ameliorated by baby stepping with small incremental changes. The Media Room (9) is a place. (...) At first thought one can imagine a circus or world's fair."[1] Nicholas Negroponte

Palavras-chave: Nicholas Negroponte. Livros. Som. Movimento.

— 09 Tecnologia

"Technology is evolving rapidly, with 500 million people spending 700 billion minutes every month on Facebook. That's the equivalent of years, if not decades, of human effort and energy.

But Facebook is just one branch of this new interconnected global network of users. In fact, it's more than a network. It's a series of sparks shimmering around the globe as bold new ideas flicker to life in the minds of individuals that can nurture and amplify them through their embryonic stages.

"E Pluribus Unum" is the dictum on the seal of the United States. It means, 'out of many, one.' The power of networks suggests that there is something bigger than the sum of the parts?perhaps our new motto should be "E Pluribus Magis," or "out of many, more." The potential of E Pluribus Magis is incomprehensible for any one person in it. But collectively, it's a feeling of solidarity, euphoria, and excitement at the revolutionary potential of like-minded people united in the goal of improving the world around them in small as well as big ways." Paddy Harrington

Palavras-chave: Noam Chomsky, Michel Foucault.

— 10 Participação

"The open secret of the electronic media, the decisive political factor, which has been waiting, suppressed or crippled, for its moment to come, is their mobilizing power.

When I say mobilize I mean mobilize. In a country which has had direct experience of fascism (and Stalinism) it is perhaps still necessary to explain, or to explain again, what that means—namely, to make men, more mobile than they are. As free as dancers, as aware as football players, as surprising as guerrillas. Anyone who thinks of the masses only as the object of politics cannot mobilize them. He wants to push them around. A parcel is not mobile; it can only be pushed to and fro. Marches, columns, parades, immobilize people. Propaganda, which does not release selfreliance but limits it, fits into the same pattern. It leads to depoliticization.

For the first time in history, the media are making possible mass participation in a social and socialized productive process, the practical means of which are in the hands of the masses themselves. Such a use of them would bring the communications media, which up to now have not deserved the name, into their own. In its present form, equipment like television or film does not serve communication but prevents it. It allows no reciprocal action between transmitter and receiver; technically speaking, it reduces feedback to the lowest point compatible with the system."

Palavras-chave: Hans Magnus Enzensberger, Mobilização.

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